Impactos da reforma tributária nas decisões de compras
por Marcos Verza e Eduardo Banzato
A Reforma Tributária não muda apenas impostos. Muda também a forma de decidir.
A Reforma Tributária brasileira sobre o consumo, consolidada a partir da criação do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), representa uma transformação estrutural no ambiente de negócios.
Apesar de estrutural, o comportamento das empresas será gradual, pois:
- as empresas possuem contratos longos
- a malha logística não muda rápido
- os benefícios fiscais existentes ainda têm validade
- as decisões de CAPEX seguem ciclos de anos…
Assim, a reforma tributária, aprovada pela Emenda Constitucional nº 132 de 2023, definiu um longo cronograma, justamente para evitar ruptura abrupta, mas que precisamos avaliar desde já em relação às nossas futuras decisões.
2026: início formal do novo modelo onde as empresas já precisam adaptar sistemas, rever seus cadastros fiscais e entender os impactos. Ainda predomina o atual sistema com ICMS, PIS e COFINS, além dos incentivos fiscais, mas os novos impostos, CBS e IBS, começam em caráter de teste/simbólico.
2027–2028: dois sistemas coexistindo, com CBS substituindo PIS/COFINS, IBS cresce gradualmente e as decisões ainda são híbridas (fiscal + eficiência).
2029–2032: o ICMS vai reduzindo ano a ano e o IBS assumindo protagonismo. Neste ponto a guerra fiscal começa a perder força e a localização passa a importar menos fiscalmente falando.
2033😮 novo modelo previsto na reforma está plenamente implementado, com a localização de CD´s definidas essencialmente por fatores logísticos, demográficos e econômicos e menos fiscais e tributários.
Assim, ao substituir tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS por um modelo de IVA dual, a reforma altera profundamente a lógica de formação de custos, precificação e relacionamento com fornecedores.
Para a área de compras (procurement), os impactos são particularmente relevantes, pois deslocam o foco das decisões de critérios fiscais para critérios econômicos reais, exigindo uma revisão abrangente das estratégias de “sourcing”, gestão de fornecedores e negociação.
Mudança de paradigma: do benefício fiscal à eficiência econômica
Historicamente, as decisões de compras no Brasil sempre foram fortemente influenciadas por fatores tributários, como incentivos fiscais estaduais e regimes especiais de ICMS.
Com a reforma, essa lógica perde relativamente relevância, pois o novo sistema adota o princípio do destino, onde o imposto é devido no local de consumo, reduzindo a chamada “guerra fiscal” entre estados.
Como consequência destas mudanças:
- A localização do fornecedor deixa de ser um fator tributário relevante
- Os Centros de Distribuição passam a ser definidos mais por eficiência logística e menos por benefícios fiscais
- A competitividade passa a se concentrar mais em preço líquido, qualidade e nível de serviço
Esse movimento promove uma alocação mais eficiente de recursos na cadeia de suprimentos.
Não cumulatividade plena e transparência de custos
Um dos pilares da reforma é a não cumulatividade plena, que permite o aproveitamento integral de créditos tributários ao longo da cadeia.
E isso implica para compras os seguintes aspectos:
- Eliminação do efeito cascata (imposto sobre imposto)
- Maior transparência no custo tributário dos insumos
- Comparabilidade mais precisa entre fornecedores
Além disso, a tributação “por fora” elimina distorções no cálculo do custo total, facilitando análises mais estruturadas de TCO (Total Cost of Ownership).
Desta forma, a área de compras passa a operar com maior clareza sobre o custo real dos itens adquiridos, permitindo decisões mais racionais e baseadas em dados.
Redefinição dos critérios de seleção de fornecedores
Com a redução da relevância tributária, os critérios clássicos de “sourcing” são reconfigurados e podemos assim fazer uma comparação antes e depois da reforma:
Antes: benefícios fiscais regionais + regime tributário do fornecedor + estruturas pensadas para redução de cargas tributárias.
Depois: a eficiência operacional predomina + capacidade de geração de crédito tributário + saúde financeira e compliance do fornecedor.
Com isso, como em qualquer mudança, surgem novos riscos: as empresas optantes pelo simples nacional podem se tornar menos competitivas em operações B2B, pois nem sempre geram créditos tributários plenos para seus clientes. Além disso, muitos fornecedores podem reestruturar operações para preservar margens, alterando contratos e modelos de prestação de serviço.
Desta forma, o processo de homologação de fornecedores passará a exigir análise tributária mais sofisticada, integrada à análise financeira e operacional.
Impactos na formação de preços e negociação
A reforma altera significativamente a dinâmica de precificação, pois os tributos deixam de estar “embutidos” e passam a ser destacados, a formação de preços torna-se mais transparente e os contratos de longo prazo precisam ser revisados.
Departamentos de compras precisarão renegociar cláusulas contratuais, especialmente aquelas relacionadas a repasse de impostos e reajustes automáticos. E, além disso, a nova sistemática pode gerar redistribuição de margens ao longo da cadeia, necessidade de revisões frequentes de preços, maior pressão por eficiência dos fornecedores.
Efeitos no fluxo de caixa e capital de giro
A introdução de mecanismos como o “split payment” e a mudança no momento do fato gerador (que pode ocorrer no pagamento) impactam diretamente o fluxo de caixa das empresas.
As consequências diretas para a área de compras são:
- Maior atenção às condições de pagamento
- Necessidade de alinhamento entre procurement e tesouraria
- Avaliação do impacto financeiro de prazos e adiantamentos
Em cadeias longas, o efeito pode ser ainda mais relevante, pressionando o capital de giro e exigindo negociações mais sofisticadas com fornecedores.
Transformações operacionais e tecnológicas
A reforma, naturalmente, exigirá mudanças estruturais nos processos internos:
- Atualização de ERPs e sistemas fiscais
- Revisão de cadastros de materiais (NCM/NBS)
- Integração entre áreas (compras, fiscal, financeiro e TI)
A correta classificação fiscal torna-se crítica, pois impacta diretamente o direito ao crédito tributário. Assim, a área de compras deixa de ser apenas operacional e passa a desempenhar papel relevante na governança tributária da empresa.
Reconfiguração da cadeia de suprimentos
A reforma também influencia decisões estruturais de Supply Chain, como já destacamos:
Por exemplo: o redesenho da malha logística se fará necessário, o que implica na revisão da localização de CDs, na reavaliação de make-or-buy etc.
A eliminação destas distorções fiscais tende a favorecer as cadeias mais curtas e eficientes, mas também pode gerar aumento de custos em setores específicos, como logística.
Riscos e oportunidades estratégicas
Riscos:
- Aumento de custos em determinados setores
- Perda de competitividade de fornecedores
- Complexidade na transição (2026–2033)
- Pressão sobre fluxo de caixa
Oportunidades:
- Redução de ineficiências tributárias
- Maior transparência e previsibilidade
- Otimização do sourcing estratégico
- Integração entre áreas (procurement + fiscal + financeiro)
Em resumo, a Reforma Tributária representa uma mudança estrutural que transforma a função de compras de uma área predominantemente operacional para uma função estratégica integrada à gestão financeira e tributária.
Ao eliminar distorções históricas e aumentar a transparência, o novo modelo exige que as decisões de compras sejam baseadas em fundamentos econômicos reais: custo total, eficiência e valor agregado.
Empresas que conseguirem antecipar essa transição, revisando seus modelos de sourcing, contratos e governança de fornecedores, estarão melhor posicionadas para capturar ganhos de competitividade e eficiência no novo ambiente tributário brasileiro.


