Digital Procurement: Definindo o Valor Agregado
Para aproveitar ao máximo a digitalização do processo de compras, os líderes devem elevar suas ambições junto com suas habilidades.
Digital procurement é a transformação do processo de compras a partir do dado, e não apenas a substituição do papel pela tela. A diferença em relação ao e-procurement é de escopo e de objetivo: o e-procurement digitaliza o fluxo, levando requisição, cotação, aprovação e pedido para uma plataforma; o digital procurement usa o dado que esse fluxo gera para mudar a decisão, com análise de gasto por categoria, previsão de demanda de compra, avaliação de risco de fornecedor e automação das compras repetitivas. Um resolve o processo; o outro muda o que se compra, de quem e quando.
Essa distinção decide o resultado do projeto. Digitalizar uma cotação mal especificada apenas acelera a chegada de propostas incomparáveis. O valor aparece quando a digitalização alcança as etapas em que a decisão é tomada: classificar o gasto para saber onde está o dinheiro, separar o que é estratégico do que é repetitivo, e liberar a compra repetitiva para catálogo, de modo que o comprador passe a gastar tempo onde a negociação vale. Sem essa separação, o projeto entrega tela nova e o mesmo resultado.
A digitalização do processo de compras parece estar na agenda de cada CPO atualmente. Contudo, esse assunto carrega em sua mochila casos de frustração em projetos longos demais, de alto custo e resultados muito aquém do esperado.
Algumas organizações descobrem que suas capacidades de TI não estão maduras o suficiente para implementar certas soluções digitais. Outros acabam de implementar novas ferramentas apenas para descobrir que os usuários simplesmente não os adotam, ou que o escalonamento em toda a empresa exige muito tempo e esforço. Mas quando solicitado a examinar por que a digitalização ficou aquém, muitos CPOs apontam para três fatores centrais:
1. Tentativa de acelerar em meio à corrida inicial para implementar as soluções propostas, a definição do escopo do projeto de digitalização pode ter sido falho;
2. A digitalização pode ter sido impulsionada mais pelo que a tecnologia poderia fazer do que pelo valor real que ela poderia criar;
3. Finalmente os CPOs avaliam que esse tipo de projeto tende a focar muito mais na solução de seus desafios internos da área de compras ao invés de olhar para as necessidades reais da empresa e como a função “procurement” pode entregar mais valor ao negócio.
Esses três problemas compartilham a mesma causa básica: a busca por soluções disponíveis no mercado, ou seja, sem nenhum tipo de personalização, para resolver problemas pontuais.
A experiência na implementação de soluções de compras digitais mostra que para uma organização concretizar todo o potencial de um processo e-procurement é necessário redesenhar todo o processo chamado “procure-to-pay” (P2P) para que os usuários envolvidos com o fluxo de aquisição possam operar em um ambiente extremamente ágil e digital.
A contrapartida do fluxo redesenhado para um processo digital é a necessidade de uma profunda mudança na forma como os usuários interagem com as atividades de solicitação, revisão e aprovação das solicitações de compras. Isso ocorre porque certas ineficiências passam a ficar evidentes como: requisições de compras ficam “travadas” nas caixas de entrada dos aprovadores, os requisitantes se deparam com a responsabilidade de submeter descritivos mais detalhados sob pena duas solicitações recusadas, novas habilidades de comunicação e de visão de negócio começam a ser demandadas dos compradores.
Mas quando um projeto de digitalização de compras é bem definido e desenhado por uma equipe experiente e qualificada os benefícios são inquestionáveis e não deixam nenhuma saudade do passado. Alguns pontos que podemos destacar como mais significativos nesse tipo de solução digital é o aumento, em até três vezes, da produtividade da equipe de compras, o incremente da confiabilidade dos processos, a geração de instrumentos de controle e governança, a mudança no perfil do comprador que passa a ter condições de atuar de maneira inteligente, estratégica e até consultiva em relação aos seus clientes internos.
Cases mostram que o redirecionamento do foco dos compradores gerou resultados financeiros provenientes de projetos de redução de custos no mínimo 100% maiores quando comparados à antiga estrutura do departamento.
Qual é o futuro do processo de compras?
A digitalização de processos recorrentes já é uma realidade dentro de um número significativo de empresas. Através dela, as organizações passam a ser mais ágeis, mais competitivas e menos expostas a riscos.
O mundo de TI passa a falar em Inteligência Artificial e Analytics suportando processos e provendo informações que serão utilizadas no dia a dia dos compradores. Com isso, esses profissionais terão mais condições de desenvolver análises confiáveis e rápidas auxiliando seus pares e atuando de forma preventiva dentro da organização. Isso se traduz através do termo “aumento de competitividade”.
Podemos afirmar, sem receio de incorrer em retórica, que esse é um caminho sem volta e as empresas que demorarem para migrar para essa realidade sofrerão amargas perdas, se é que já não estão sofrendo com isso.
Onde as compras de amanhã podem ter o maior impacto?
Ainda há um mar de oportunidades a serem descobertas através do uso de tecnologias digitais. Mas mesmo sem termos chegado ao fundo dessas águas profundas e agradáveis já podemos vislumbrar resultados ainda mais impactantes na forma como a área de compras agrega valor ao negócio.
Muito em breve CPOs estarão participando na definição dos caminhos estratégicos da empresa, dando orientações sobre os melhores destinos para a abertura de filiais, influenciando os engenheiros na escolha dos materiais a serem utilizados em novos produtos, provendo informações para auxiliar o CFO da organização no estabelecimento dos melhores modelos de financiamento de máquinas e equipamentos, entre outros.
O departamento de compras muito em breve passará do papel de coadjuvante e de suporte ao negócio para peça fundamental na definição de planos estratégicos de longo prazo. E tudo isso graças ao uso inovador das soluções digitais já disponíveis no mercado.
Há um modelo de referência que ajuda a situar onde compras entra na cadeia e por que a digitalização dessa área afeta as outras. O SCOR (Supply Chain Operations Reference), mantido pela ASCM, organiza a cadeia em processos de nível superior, entre eles o Source, que é o de suprir, ao lado de planejar, produzir, entregar e retornar. Compras é o Source, e o dado que ele produz alimenta diretamente o planejar e o produzir: prazo real de fornecedor, confiabilidade de entrega e lote mínimo de compra são entradas do cálculo de estoque de segurança e do ponto de pedido. É por isso que um projeto de digital procurement bem feito melhora indicadores que não são de compras: quando o prazo do fornecedor deixa de ser estimativa e passa a ser histórico medido, o estoque de segurança pode cair sem que o risco de falta aumente. Esse é o valor agregado que o título deste artigo promete, e ele mora fora da área de compras.
E-procurement e digital procurement não são a mesma coisa
| Critério | E-procurement | Digital procurement |
|---|---|---|
| O que muda | O meio: do papel e do e-mail para a plataforma | A decisão: o que comprar, de quem e quando |
| Pergunta que responde | Como executar e registrar a compra | Onde está o gasto e onde vale negociar |
| Entregável típico | Requisição, cotação, pedido e contrato eletrônicos | Análise de gasto por categoria, risco de fornecedor, catálogo automatizado |
| Ganho principal | Rastreabilidade e tempo de ciclo | Redução de compra fora de contrato e melhora do prazo de fornecimento |
| Efeito fora de compras | Pequeno | Grande: prazo medido reduz estoque de segurança |
| Pré-requisito | Processo definido | Dado histórico limpo e categorização de gasto |
É a transformação do processo de compras a partir do dado: análise de gasto por categoria, previsão de demanda de compra, avaliação de risco de fornecedor e automação das compras repetitivas. Vai além de digitalizar o fluxo, porque usa a informação gerada para mudar o que se compra, de quem e quando.
O e-procurement digitaliza o meio: leva requisição, cotação, aprovação e pedido para uma plataforma. O digital procurement muda a decisão, usando o dado gerado por esse fluxo. Um resolve o processo, o outro muda o resultado. Projetos vendidos como transformação e entregues como formulário eletrônico costumam ser exatamente essa confusão.
Pela categorização do gasto. Antes de qualquer ferramenta, é preciso saber quanto a empresa gasta em quê, com quem e sob qual contrato. Sem essa base, a análise sofisticada roda sobre uma classificação inconsistente e produz conclusão que ninguém sustenta na reunião seguinte. Categorizado o gasto, o passo natural é separar o repetitivo, que vai para catálogo, do estratégico, que fica com o comprador.
Diretamente. Prazo de entrega, confiabilidade e lote mínimo de fornecedor são entradas do cálculo de estoque de segurança e do ponto de pedido. Quando esses números deixam de ser estimativa e passam a ser histórico medido, é possível reduzir o estoque de segurança sem aumentar o risco de falta. Esse é o ganho que costuma justificar o projeto, e ele aparece fora da área de compras.
No processo Source, o de suprir, ao lado de planejar, produzir, entregar e retornar. Situar compras nesse mapa ajuda a ver que o dado gerado ali alimenta o planejamento e a produção, e que uma melhoria em compras não termina em compras: ela se propaga pelos processos seguintes.
Serve, desde que comece pelo que dá resultado com pouco: categorizar o gasto e colocar em catálogo os itens repetitivos de baixo valor. Essas duas medidas não exigem plataforma sofisticada e liberam o tempo do comprador para a negociação que realmente move o custo. As camadas de previsão e de risco de fornecedor fazem sentido depois, quando já existe histórico limpo para analisar.
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