Princípios fundamentais da gestão de estoques: indicadores, custos e modelos
Princípios fundamentais da gestão de estoques em resumo: Os princípios fundamentais da gestão de estoques partem de duas razões para estocar: garantir a continuidade do fornecimento e amortecer as incertezas. Além disso, o grande desafio é conciliar a redução do capital de giro com o aumento do nível de serviço. Por isso, a gestão se apoia em indicadores, no lote econômico e em modelos de reposição.
Neste artigo, iremos abordar de forma simples e concisa, os princípios fundamentais da gestão de estoques.
Razões para Manutenção de Estoques
As razões para se manter estoques são duas:
- Garantir a continuidade do fornecimento.
- Amortecer o impacto das incertezas no fornecimento, aquisição, produção e distribuição.
Administrar a dinâmica entre fornecimento e demanda é uma das principais funções da gestão dos estoques, buscando equalizar e equilibrar diferentes perfis.
A situação ideal é que os materiais fluam pela empresa, com a maior velocidade possível, funcionando os estoques como pulmões.
A necessidade maior ou menor quantidade de estoque é diretamente impactada pela estabilidade das variáveis fornecimento e demanda:
- Fornecimento e demanda estáveis permitem manter estoques reduzidos.
- Se apenas uma variável for instável (fornecimento estável e demanda instável, ou vice-versa), são necessários estoques reguladores.
- Se ambos forem instáveis, são requeridos estoques elevados
Trade-Off da Gestão
O grande desafio da gestão de estoques é conciliar a redução do Capital de Giro (custo) com o aumento do Nível de Serviço ao cliente (satisfação). E esta, que não é uma tarefa fácil, dado que para atender uma das necessidades (por exemplo reduzir Capital de Giro), a outra (Nível de Serviço) pode ficar prejudicada.
Tipos de Materiais
Para iniciar, é importante conhecer os principais tipos dos materiais em estoque, uma vez que as abordagens e estratégias são muitas vezes específicas.
- Por Aplicação: Produtivos (Matérias-Primas, Estoque em Processo, Semi-Acabados, Componentes e Produtos Acabados), que agregam valor ao produto; e Improdutivos (Embalagens, Itens de Manutenção, EPIs, etc.), necessários para as funções empresariais.
- Por Utilidade: Ativo (demanda frequente/planejada) e Obsoleto/Avarias/Refugos (itens descontinuados ou fora de especificação, que geram custos desnecessários e impactam margens).
- Por Disponibilidade: Disponível (sem restrições, alocável) e Indisponível (sob segregação, como problemas de qualidade ou reserva). A otimização começa pela eliminação do estoque indisponível.
Indicadores-Chave
A qualidade da gestão é medida por indicadores, onde podemos destacar os principais:
- Cobertura: Indica o tempo que o estoque disponível duraria, se o reabastecimento cessasse. A meta é normalmente manter coberturas as mais reduzidas possíveis.
- Giro: Mostra quantas vezes o estoque foi consumido no período. É o inverso da Cobertura. Com base neste indicador, podemos classificar os itens como Moving (movimentação constante e frequente), Slow Moving (pelo menos uma movimentação entre 3 e 12 meses) e No Moving (sem movimentação em 12 meses ou mais). A meta é manter o giro elevado.
- Acuracidade: Mede o percentual de itens cujo saldo físico confere com o sistema, sendo vital para a apuração da qualidade da gestão dos estoques. Empresas com altos padrões de acuracidade, normalmente acima de 98%, são as que gerenciam bem seus estoques.
- Nível de Serviço (OTIF, On Time In Full): Reflete a disponibilidade do material, medido pelo número de linhas de pedidos completamente atendidas em quantidade e prazo em relação ao total de linhas de pedidos. É fundamental para dimensionar o Estoque de Segurança. OTIF elevado somente é possível com estoques disponíveis para praticamente todos os itens, na proporção da sua demanda e representa de forma indireta, a satisfação do cliente.
- Lead Time: Tempo total de ressuprimento (compra, requisição ou produção) até a disponibilização do material, também fundamental no cálculo do estoque de segurança. Reduzidos Lead Times permitem maior quantidade de reposições, que por sua vez, colaboram para redução da cobertura, aumento do giro e redução dos estoques.
Custos e Otimização pelo Lote Econômico
Estoque elevado é custo, e quanto maior o custo, menor a competitividade, menores margens e lucros reduzidos ou inexistentes. Por outro lado, falta de estoque também é custo, no caso, custo de oportunidade perdida. Atualmente, reduzir custo é fundamental para que uma empresa consiga se manter competitiva. O grande segredo é o balanceamento de estoques, onde se mantém a quantidade ideal, nem mais, nem menos que o necessário, evitando os custos por excesso e por falta.
Entre os custos que uma empresa pode reduzir, o de estoque é um dos principais. Para uma boa gestão de estoques portanto, é importante saber como este custo pode ser medido. Afinal, o que não é medido não é gerenciado.
O Custo Total de Estocagem (CE) é a soma do Custo de Armazenagem (CA) e do Custo de Pedido (CP).
- O CA reflete o custo de carregar o item em estoque (capital de giro, instalações, operação de armazenagem, obsolescência).
- O CP reflete o custo da operação de compra (salários, estrutura, sistemas) ou o custo de produção para itens fabricados.
Lotes econômicos: Uma das formas para reduzir o custo total de estocagem, é através do Lote Econômico (LE), que é a quantidade de lote que equilibra ambos os custos, de armazenagem e de pedido (onde CA = CP) e minimiza o Custo Total de Estocagem. A aplicação correta do LE pode gerar reduções significativas nos custos de estocagem. O lote Econômico pode ser de Compra (suprimentos, materiais comprados) ou Lote Econômico de Produção (calculado de forma específica, com variáveis de capacidade produtiva e tempos de produção) e neste caso o CP significará o de Produção,
Modelos Clássicos de Gestão
Entre diversos modelos, dois são clássicos:
- Modelo do Ponto de Pedido (PP) ou Sistema de Revisão Contínua: Utilizado para itens com baixa variação de demanda. O pedido é disparado quando o estoque atinge um ponto definido pelo Estoque de Segurança (Eseg) somado a demanda prevista durante o Lead Time.
- Modelo de Reposição Periódica (T, S) ou Sistema de Revisão Periódica: Aplicável a itens com elevada sazonalidade ou variação ou onde o fornecedor determina períodos fixos de entrega. A revisão ocorre em intervalos fixos (T), e o Ponto de Pedido (S) que é variável, considera o Tempo de Revisão somado ao Lead Time.
Estoque de Segurança (Eseg): muitos ainda acreditam que o estoque de segurança é um valor definido ou arbitrado qualitativamente, ou ainda que se refere a uma cobertura de estoques de referência. Porém, o estoque de segurança é resultado de um cálculo em função do Nível de Serviço Desejado (Fator Z) multiplicado pelo Desvio Padrão da demanda no período de Lead Time, multiplicado pela raiz quadrada do Lead Time.
Estratégias e Aspectos Operacionais
A categorização de itens é fundamental para personalizar políticas de gestão e com isto, definir Níveis de Serviço diferenciados, utilizando quatro possíveis classificações de um item:
- ABC (valor)
- PQR (popularidade/giro)
- XYZ (criticidade/importância)
- 123 (complexidade de aquisição/Lead Time).
Cadastros e Metodologia de Inventário de Materiais
A excelência na gestão de estoques também depende do Saneamento de Cadastros (garantindo que os itens sejam inequívocos, precisos, unificados e uniformes) e da Acuracidade de Estoques que pode ser mantida em padrões elevados por meio de Inventários Rotativos.
Veja também: Custos x Nível de Serviço no TRC
Metodologia de Diagnóstico
A gestão de estoques é uma atividade contínua e rotineira. Para isso, é importante que os indicadores sejam monitorados constantemente, e periódicamente seja realizado um Diagnóstico.
Dentre as diversas metodologias, destacamos a Metodologia Prática para Dimensionamento de Estoques (MPDE) que utiliza o Movigrama como uma ferramenta de diagnóstico e simulação. O Movigrama, que funciona como um “eletrocardiograma”, permite analisar a dinâmica de entradas, saídas e saldo de itens críticos, identificando problemas passados ou potenciais de gestão e comparando o comportamento real com o comportamento simulado sob novos parâmetros.
E então, o que falta para começar a praticar uma boa gestão de estoques?

Indicadores-chave da gestão de estoques
Em resumo, os indicadores e as metas citados no post:
| Indicador | O que mostra | Meta |
|---|---|---|
| Cobertura | Quanto tempo o estoque duraria sem reabastecimento | A mais reduzida possível |
| Giro | Quantas vezes o estoque foi consumido no período | Elevado |
| Acuracidade | % de itens com saldo físico igual ao do sistema | Normalmente acima de 98% |
| Nível de serviço (OTIF) | Linhas de pedido atendidas em quantidade e prazo | Elevado, com estoque disponível |
| Lead time | Tempo total de ressuprimento | Reduzido, para mais reposições |
Perguntas frequentes sobre gestão de estoques
Os conceitos centrais são as razões para manter estoques, o trade-off entre capital de giro e nível de serviço, os tipos de materiais, os indicadores (cobertura, giro, acuracidade, nível de serviço e lead time), o custo total de estocagem e o lote econômico, os modelos de reposição, o estoque de segurança e a classificação dos itens em ABC, PQR, XYZ e 123.
Por duas razões: garantir a continuidade do fornecimento e amortecer as incertezas no fornecimento, na aquisição, na produção e na distribuição. A quantidade depende da estabilidade: com fornecimento e demanda estáveis, os estoques podem ser reduzidos; se uma das variáveis é instável, são necessários estoques reguladores; se as duas são instáveis, estoques elevados.
Os principais são a cobertura, que indica quanto tempo o estoque duraria sem reabastecimento; o giro, que é o inverso da cobertura; a acuracidade, percentual de itens com saldo físico igual ao do sistema, normalmente acima de 98% nas empresas que gerenciam bem; o nível de serviço (OTIF); e o lead time de ressuprimento.
Lote econômico é a quantidade de lote que equilibra o custo de armazenagem e o custo de pedido e minimiza o custo total de estocagem. Pode ser de compra, para materiais comprados, ou de produção, calculado com variáveis de capacidade produtiva e tempos de produção. Aplicado corretamente, gera reduções significativas nos custos de estocagem.
O estoque de segurança não é um valor arbitrado nem uma cobertura de referência. Ele é calculado a partir do nível de serviço desejado (fator Z), multiplicado pelo desvio padrão da demanda e pela raiz quadrada do lead time. Por isso, nível de serviço e lead time são indicadores fundamentais para dimensioná-lo.
📚 Conteúdos complementares recomendados
- Estoque de segurança: Além disso, como calcular o estoque de segurança.
- Giro de estoque: O indicador em detalhe.
- Acuracidade de estoque: Por fim, como medir a confiabilidade do saldo.
Por: Wagner Salzano

